REALIZAÇÃO

PATROCÍNIO

Foto (informação nutricional): Marcos Santos/USP Imagens

© 2018 Projeto Credibilidade

Como detectar a desinformação

O aumento vertiginoso da desinformação tem motivado no Brasil e no exterior uma série de iniciativas de checagem de informações e de pesquisa e desenvolvimento de ferramentas para auxiliar no trabalho de verificação. Tais esforços visam aprimorar a qualidade das informações na internet, ajudando a identificar informação incorreta ou fraudulenta.

Tanto a checagem quanto a verificação, visam aprimorar a qualidade das informações na internet, ajudando a identificar informação incorreta ou fraudulenta.

 

Diante do risco de distorções do debate eleitoral causados por desinformação, no início de agosto de 2018 surgiu o Projeto Comprova, uma iniciativa inédita do jornalismo brasileiro. 

Trabalhando de forma colaborativa, 24 redações brasileiras se uniram para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas durante a campanha presidencial de 2018 produzidas por fontes não oficiais na internet.

 

A missão do projeto é assim resumida:

O objetivo do Comprova é identificar e enfraquecer as sofisticadas técnicas de manipulação e disseminação de conteúdo enganoso que vemos surgir ao redor do mundo. Nossos parceiros estão unidos no compromisso de investigar — de maneira precisa e responsável — declarações, especulações e rumores que estejam ganhando fôlego e projeção na internet. Ao trabalhar coletivamente para selecionar e apurar textos, vídeos, imagens e gráficos, os jornalistas Comprova vão contextualizar e esclarecer informações que podem ser consideradas enganosas ou deturpadas e tomar providências para minimizar o alcance e o impacto de mentiras comprovadas e deliberadas.”

Projeto Comprova
(Jornalismo colaborativo contra a desinformação)

Os princípios norteadores do Comprova são: rigor, integridade e imparcialidade, independência, transparência e responsabilidade ética.

Conforme a seção de perguntas frequentes do site do projeto, “o Comprova foi idealizado e desenvolvido pelo First Draft e o Shorenstein Center, da Harvard Kennedy School, com a colaboração de Abraji, Projor, Google News Initiative e Facebook Journalism Project”. 

 

Exemplos de verificações produzidas pelo Comprova:

 

Mutirão de checagem

na eleição francesa

Liderado pelo First Draft News, durante a última campanha presidencial na França a iniciativa CrossCheck envolveu uma coalizão colaborativa de 37 veículos franceses, entre os quais Le MondeAgence France Presse (AFP) e Libération, e também veículos britânicos para verificar informações.

 

Ao longo de dez semanas, o CrossCheck produziu 150 matérias sobre desinformação relacionadas à campanha eleitoral. Delas, 67 foram publicadas pelos veículos participantes, produzindo uma grande audiência em seus próprios sites e perfis em redes sociais.

O conteúdo checado incluía textos, imagens e vídeos publicados na Web. Quando uma informação enganosa ou manipulada era amplamente compartilhada, a coalizão emitia um desmentido preparado com a supervisão da agência France Presse. O desmentido era então publicado tanto no site do CrossCheck quanto nos dos veículos associados, aumentando o alcance da informação checada.

CrossCheck/Reprodução

Desmentido do CrossCheck de que o então candidato Emmanuel Macron teria usado um ponto eletrônico durante um debate na campanha presidencial francesa. Foto: Reprodução Crosscheck.

Dois exemplos de desmentidos: o boato de que o então candidato Emmanuel Macron estaria usando um ponto eletrônico num debate. E o que a Arábia Saudita estava financiando sua campanha.

Além de um de dois editores sêniores oriundos dos próprios veículos, o CrossCheck forneceu um time de dez editores que ficaram hospedados nas redações. As principais ferramentas de trabalho eram o Newswhip, capaz de prever o nível e velocidade de dispersão do conteúdo digital, e o Crowdtangle, uma ferramenta analítica do Facebook.

 

Os checadores e editores participantes do CrossCheck se comunicavam através do sistema de mensagens Slack e tinham acesso a todas as informações levantadas e checadas.

O CrossCheck teve o patrocínio do Google e também o apoio financeiro do Facebook para a construção de seu perfil nesta rede social.

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(Texto adaptado do artigo Claire Wardle: combater desinformação é como varrer as ruas,de Angela Pimenta, publicado pelo Observatório da Imprensa)

Já as iniciativas de checagem se propõe a contestar declarações falaciosas de personalidades públicas veiculadas na mídia, especialmente nas redes sociais. Uma vez constatado o grau de imprecisão de determinado conteúdo, é possível reduzir seu alcance e impacto através de mecanismos artificiais de impulsionamento computacional oferecidos pelas redes sociais.

As três principais plataformas de checagem no Brasil — Agência Lupa, Aos Fatos, e Truco — têm-se dedicado a verificar afirmações e dados relacionados a temas de interesse público. Lupa, Aos Fatos e Truco são associadas à International Fact-checking Network (Rede Internacional de Checagem), ou IFCN, que por sua vez é ligada ao Poynter, uma instituição dedicada à educação jornalística.

 

No Brasil, diversos veículos jornalísticos como Extra, Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo e UOL também mantêm seções dedicadas à prática de checagem.

 

As 40 organizações participantes da IFCN adotam os cinco princípios abaixo:

  1. Compromisso com o apartidarismo  e justiça – Checamos afirmações usando o mesmo padrão para cada fato checado. Não concentramos nossa checagem em nenhum lado. Seguimos o mesmo processo para cada fato checado e deixamos que ele guie nossas conclusões. Não defendemos ou adotamos posições sobre formulação de políticas nos fatos que checamos
     

  2. Compromisso com a transparência de fontes – Queremos que nossos leitores sejam capazes de verificar nossas conclusões por si próprios.  Fornecemos informações sobre todas as fontes detalhadas o bastante para que nossos leitores possam replicar nosso trabalho, exceto nos casos em que a segurança pessoal de uma fonte possa ser comprometida. Nesses casos, fornecemos o máximo de detalhes possível
     

  3. Compromisso a transparência no financiamento e organização – Somos transparentes sobre nossas fontes de financiamento. Se aceitarmos o financiamento de outras organizações, garantimos que os financiadores não tenham influência sobre as conclusões a que chegamos em nossos relatórios. Detalhamos os antecedentes profissionais de todas as figuras-chave em nossa organização e explicamos nossa estrutura organizacional e status legal. Indicamos claramente a forma para os leitores se comunicarem conosco
     

  4. Compromisso com a transparência da metodologia ­– Explicamos o método que utilizamos para selecionar, pesquisar, escrever, editar, publicar e corrigir nossas checagens. Encorajamos os leitores a enviar pedidos de checagem e somos transparentes sobre o por quê e como checamos os fatos
     

  5. Compromisso com correções abertas e honestas – Publicamos nossa política de correções e a seguimos escrupulosamente. Corrigimos nossos erros de forma clara e transparente segundo nossa política de correções, buscando, tanto quanto possível, garantir que os leitores vejam a versão corrigida

Lançado em 2003 pelo Annenberg Public Policy Center da Universidade de Pensilvânia, o site FactCheck.org, é considerado a  iniciativa pioneira de checagem no meio digital.  

Segundo um relatório do Duke Reporters' LAB, em setembro de 2017 havia globalmente 126 agências ativas dedicada à checagem, além de outras 64 inativas.

FactCheck.org/Reprodução

O método padrão utilizado em checagem jornalística consiste em selecionar uma declaração pública ou informação noticiada para examinar e avaliar sua veracidade. O processo envolve a consulta da fonte original, a fim de se checar a autenticidade, além da fonte oficial a que a informação ou declaração é atribuída. O conjunto de informações resultantes pode subsidiar ou contrariar o conteúdo em questão.

 

Justamente por envolver procedimentos tipicamente jornalísticos de apuração de informação, o método da checagem depende substancialmente do trabalho humano.

 

Mesmo quando se utilizam, para esse fim, de recursos computacionais próprios do chamado jornalismo de dados, a avaliação da qualidade jornalística de uma declaração ou informação depende, em última instância, de um crivo humano.

 

Cabe ao checador levar em conta critérios de edição como clareza, precisão, relevância, atualidade, impacto e corroboração. Em caso de personagens públicas, é preciso considerar também a coerência de determinada afirmação em relação a declarações e posições prévias sobre um tema.

 

Já os sistemas automatizados de checagem operam  com base na programação de algoritmos dedicados a rastrear e aferir o grau de credibilidade de uma informação supostamente revestida de atributos jornalísticos.

 

Conforme observa a acadêmica polonesa Grazyna Piechota,  a recente criação e implementação do sistema automatizado de checagem decorre da própria importância dos algoritmos na constituição do ambiente comunicacional que caracteriza os mecanismos de busca e feeds de notícias amplamente utilizados na internet, especialmente nas redes sociais, como Twitter e Facebook.

 

Hoaxy/Reprodução

Hoaxy – Como funciona uma ferramenta para detectar informações falsas nas redes sociais

 

O Hoaxy é uma ferramenta web de rastreamento de notícias falsas compartilhadas no Twitter. Ela foi desenvolvida por uma equipe da Universidade de Indiana, a partir de 2015, sob a liderança do pesquisador Filippo Menczer. A ideia ganhou impulso a partir da avalanche de desinformação durante a eleição presidencial americana de 2016, demandando verificações precisas de forma simultânea à publicação de conteúdos na rede.  

Listagem de artigos rastreados como alegações ou fatos verificados pelo Hoaxy

A ferramenta permite que pesquisadores, jornalistas e o público em geral estudem os fatores que afetam o sucesso e a mitigação da má informação digital massiva, demonstrando como ela se dissemina e auxiliando na aferição da autenticidade das informações compartilhadas na rede.

 

O sistema apresenta os resultados por meio de grafos (representação gráfica de uma relação entre objetos) que representam a relação entre compartilhamentos de links de artigos suspeitos, permitindo avaliar o nível de propagação de uma informação ou notícia incorreta.

 

Os grafos são normalmente representados por pontos e linhas, onde cada ponto é um nó (objeto a ser relacionado) e cada linha é uma relação entre dois nós.

 

No caso do Hoaxy, eles são chamados de dígrafos, ou grafos com relação de sentido único. Cada nó do grafo gerado pelo Hoaxy está associado a uma conta no Twitter.

 

Dois nós são conectados se o link do artigo em questão foi passado de um usuário para outro via retweet, uma resposta, citação ou menção.

 

As cores da conexão indicam o tipo de informação, se alegação (claim, isto é, um artigo não verificado) ou verificação de fato. Clicando em cima do nó obtém-se as informações do tuíte (quem tuitou e qual foi a mensagem) e o artigo ou reportagem em questão.

 

Uma alegação é um objeto de estudo a ser monitorado pelo Hoaxy. Pode se tratar de uma notícia falsa, um engano, rumor, conspiração, sátira, ou até mesmo, um artigo com fatos em conformidade. Dois tipos de fontes de informação são monitorados para a identificação desses objetos a serem alvo de verificação:

  1. Sites de organizações independentes de verificação de conteúdo, como as agências de checagem de fatos (que fazem esse tipo de trabalho com uso de métodos jornalísticos)
     

  2. Sites que publicam frequentemente declarações e informações imprecisas, não verificadas ou sátiras e que foram classificados como inconsistentes por estas mesmas organizações de verificação de conteúdo

O Hoaxy monitora, então, a forma como a informação identificada como falsa ou fraudulenta se alastra pela rede social Twitter. Mostra a qual verificação de fato produzida por agências de checagem uma determinada alegação (possivelmente já contestada) está vinculada.

Se um internauta suspeita da veracidade de uma informação ou declaração, poderá testar a afirmação na aplicação para ver o quanto ela se propagou pela rede. A ferramenta permite observar quem são os principais e os mais influentes disseminadores de notícias falsas.

Assim, são processados dois tipos de informação, uma alegação (claim, em azul) ou uma verificação de fato (fact checking, em laranja), sendo esta um artigo publicado por organização de checagem para se contrapor à informação falsa. Dois aspectos são verificados:

  1. A tendência temporal que representa o número de compartilhamentos em função de uma linha do tempo no Twitter
     

  2. O padrão de difusão interpessoal, que informa a passagem da informação de usuário a outro usuário ou grupo dentro da rede. O rastreamento é feito de modo ininterrupto e de forma automática

O resultado apresentado após a inserção de uma palavra-chave é uma listagem de artigos rastreados, que são classificados como alegações ou fatos verificados, e a exibição de gráficos sobre o padrão de propagação da informação: um gráfico representa a quantidade de compartilhamento pelo tempo e outro, a rede de disseminadores da informação.

Hoaxy/Reprodução

Gráficos de compartilhamento e disseminação da informação gerados pelo Hoaxy. (Crédito: Reprodução/Hoaxy)

É importante ressaltar que a ferramenta não avalia a credibilidade de uma notícia e, portanto, não é capaz de julgar ou decidir acerca da falsidade ou veracidade de uma informação ou declaração.

 

Seu objetivo é dimensionar e monitorar dinamicamente o comportamento de informações e declarações suspeitas ou comprovadamente falsas ou fraudulentas na rede, a partir de sua identificação por terceiros, como as agências especializadas em checagem.

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(Texto adaptado do artigo: Instrumentos de checagem editorial e algorítmica, de Francisco Belda)

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