A crise da credibilidade no Brasil

Este Manual da Credibilidade se destina a um vasto público — desde jornalistas profissionais da chamada imprensa local e regional, como também os da chamada grande imprensa, além de professores e estudantes de jornalismo. 

Esperamos que ele também seja útil a todos os que se interessam pelo jornalismo, sobretudo pela ligação umbilical entre a democracia e a produção de informações qualificadas que guiem decisões de interesse público.

A exemplo do que acontece em outros países democráticos, como os Estados Unidos, Reino Unido e França, o jornalismo também enfrenta uma crise de credibilidade no Brasil, como mostra este gráfico, com dados do Edelman Trust Barometer:

Fonte: Relatório Trust Barometer 2021

A versão anterior deste gráfico atribuía erroneamente a porcentagem de 46% para a credibilidade na mídia no Brasil. A correção foi feita em 29/07/2021.

É preciso considerar que além do jornalismo, o termo mídia abrange atividades como entretenimento e publicidade e todos os meios de comunicação, on-line e off-line.

Entre os entrevistados brasileiros, o relatório Trust Barometer 2021 também indica que 65% pensam que "jornalistas e repórteres tentam enganar as pessoas de propósito dizendo coisas que sabem ser falsas ou grosseiramente exageradas." 

 

Outros 64% dos brasileiros pesquisados responderam que "a maioria das organizações jornalísticas está mais preocupada em apoiar uma ideologia ou posição política do que informar o público." e 72% dos brasileiros entrevistados disse que a mídia não está indo bem em termos de objetividade e apartidarismo."

 

A descrença do público sobre informações jornalísticas, sejam notícias, análises ou opiniões, deriva da combinação das seguintes causas:

  1. A fragmentação da notícia no meio digital. Ao migrar das páginas impressas de jornais e revistas para as timelines das redes sociais, o conteúdo noticioso se mistura — e é frequentemente confundido — com o ruído digital
     

  2. A desintermediação da notícia no meio digital. Fenômeno associado à fragmentação, a desintermediação diz respeito à possibilidade que fontes, sobretudo governamentais e/ou políticas, têm de evitar o escrutínio jornalístico através de seus canais diretos de comunicação, como perfis e contas em mídias sociais
     

  3. As chamadas "notícias falsas", um termo impreciso para tratar das informações deliberadamente fraudulentas, entre outros tipos de desinformação, que são publicadas sobretudo nas redes sociais e aplicativos de mensagens
     

  4. A polarização política da sociedade brasileira. Situada em campos ideológicos opostos e antagônicos, uma parte substancial do eleitorado tende a desacreditar de informações verdadeiras que prejudiquem seus aliados e/ou candidatos ou que beneficiem seus oponentes
     

  5. O viés de confirmação, a tendência natural que as pessoas têm de lembrar, interpretar ou pesquisar informações para confirmar crenças ou hipóteses iniciais. Uma das causas da polarização política, o conceito de viés de confirmação foi cunhado pela dupla de psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky na década de 1970
     

  6. Os chamados filtros bolhas nas redes sociais. Confinadas às suas bolhas, as pessoas tendem a só se relacionar com quem pensa como elas, ignorando o discurso contraditório e a realidade fora de seu ambiente. Este conceito foi cunhado pelo jornalista americano Eli Pariser por volta de 2010
     

  7. Quando se trata da produção de notícias, o viés da confirmação e os filtros bolhas também podem levar à apuração enviesada de informações — com sérios prejuízos para a integridade do conteúdo final
     

  8. Outras deficiências no fazer jornalístico, tais como a falta de princípios éticos, o não cumprimento desses princípios por veículos que afirmam adotá-los e a falta de transparência em comunicá-los
     

  9. A precarização da profissão jornalística. Em grande medida resultante do avanço da publicidade digital, a contínua crise financeira dos veículos jornalísticos impressos têm causado cortes de vagas, achatamento salarial e a substituição nas redações de jornalistas mais velhos e melhor pagos por repórteres mais jovens e inexperientes

Foi nesse contexto que em 2015 nasceu o Trust Project, uma iniciativa liderada pelos jornalistas americanos Sally Lehrman, que dirige o Trust, Richard Gingras, vice-presidente de notícias do Google, e Craig Newmark, criador dos classificados Craiglist.

O Trust Project tem duas missões articuladas: refletir sobre a fragmentação da notícia no meio digital e desenvolver ferramentas e técnicas junto com veículos jornalísticos e empresas de tecnologia para distinguir a informação jornalística qualificada do ruído – "notícias falsas" e a desinformação em geral que poluem as redes sociais.

 

A iniciativa chegou ao Brasil em 2016 através do Projeto Credibilidade, o capítulo brasileiro do Trust Project. Em maio de 2021, o Credibilidade fundiu-se com o Trust Project. Desde então, os coordenadores brasileiros, os jornalistas Francisco Rolfsen Belda Angela Pimenta, são co-líderes do Trust Project no Brasil. O projeto mantém parcerias institucionais com o Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e a Unesp, a Universidade Estadual Paulista. 

Credibilidade é importante. Sem ela, tanto os veículos jornalísticos como o conhecimento coletivo perdem. Vivemos num mundo cada vez mais desafiador e complexo. Cobrar as responsabilidades do governo, empresas e instituições é cada vez mais vital. Para funcionar, a democracia depende de informações justas, precisas e completas que sejam amplamente distribuídas e consumidas e respeitadas por sua credibilidade. 

 

Sally Lehrman e Richard Gingras
(Extraído do manifesto Caos on-line exige ação radical para que o jornalismo tenha credibilidade)

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