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Foto (informação nutricional): Marcos Santos/USP Imagens

© 2018 Projeto Credibilidade

A crise da credibilidade no Brasil

Este Manual Grande Pequena Imprensa da Credibilidade se destina a um vasto público — desde jornalistas profissionais da chamada imprensa local e regional, como também os da chamada grande imprensa, além de professores e estudantes de jornalismo. 

Esperamos que ele também seja útil a todos os que se interessam pelo jornalismo, sobretudo pela ligação umbilical entre a democracia e a produção de informações qualificadas que guiem decisões de interesse público.

A exemplo do que acontece em outros países democráticos, como os Estados Unidos, Reino Unido e França, o jornalismo também enfrenta uma crise de credibilidade no Brasil, como mostra este gráfico, com dados do Edelman Trust Barometer:

Fonte: Adaptado de Edelman Trust Barometer 2018 - Grupo WPP. 

Disponível em: https://www.edelman.com/trust-barometer

Pesquisa realizada entre 8.000 consumidores de notícias nos seguintes países: Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e França indica que as chamadas “notícias falsas” afetam a confiança na mídia e que grandes veículos de imprensa se saem melhor em termos de credibilidade.

Fonte: Digital News Report, Instituto Reuters / Universidade de Oxford. Adaptado de Folha de S.Paulo 05/11/2017.

Disponível em: https://goo.gl/i63k8a

A descrença do público sobre informações jornalísticas, sejam notícias, análises ou opiniões, deriva da combinação das seguintes causas:

  1. A fragmentação da notícia no meio digital. Ao migrar das páginas impressas de jornais e revistas para as timelines das redes sociais, o conteúdo noticioso se mistura — e é frequentemente confundido — com o ruído digital
     

  2. A desintermediação da notícia no meio digital. Fenômeno associado à fragmentação, a desintermediação diz respeito à possibilidade que fontes, sobretudo governamentais e/ou políticas, têm de evitar o escrutínio jornalístico através de seus canais diretos de comunicação, como perfis e contas em mídias sociais
     

  3. As chamadas "notícias falsas", um termo impreciso para tratar das informações deliberadamente fraudulentas, entre outros tipos de desinformação, que são publicadas sobretudo nas redes sociais e aplicativos de mensagens
     

  4. A polarização política da sociedade brasileira. Situada em campos ideológicos opostos e antagônicos, uma parte substancial do eleitorado tende a desacreditar de informações verdadeiras que prejudiquem seus aliados e/ou candidatos ou que beneficiem seus oponentes
     

  5. O viés de confirmação, a tendência natural que as pessoas têm de lembrar, interpretar ou pesquisar informações para confirmar crenças ou hipóteses iniciais. Uma das causas da polarização política, o conceito de viés de confirmação foi cunhado pela dupla de psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky na década de 1970
     

  6. Os chamados filtros bolhas nas redes sociais. Confinadas às suas bolhas, as pessoas tendem a só se relacionar com quem pensa como elas, ignorando o discurso contraditório e a realidade fora de seu ambiente. Este conceito foi cunhado pelo jornalista americano Eli Pariser por volta de 2010
     

  7. Quando se trata da produção de notícias, o viés da confirmação e os filtros bolhas também podem levar à apuração enviesada de informações — com sérios prejuízos para a integridade do conteúdo final
     

  8. Outras deficiências no fazer jornalístico, tais como a falta de princípios éticos, o não cumprimento desses princípios por veículos que afirmam adotá-los e a falta de transparência em comunicá-los
     

  9. A precarização da profissão jornalística. Em grande medida resultante do avanço da publicidade digital, a contínua crise financeira dos veículos jornalísticos impressos têm causado cortes de vagas, achatamento salarial e a substituição nas redações de jornalistas mais velhos e melhor pagos por repórteres mais jovens e inexperientes

 

Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia realizada, em 2015, pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, apenas 27% dos brasileiros diziam, naquele ano, confiar "sempre ou muitas vezes" em notícias obtidas na internet, por meio de sites, blogs ou redes sociais. Na edição seguinte, o levantamento desagregou sites, blogs e redes sociais dentro do meio internet. Esses dados mais recentes indicaram aumento da confiança em jornais impressos, conforme mostra o gráfico a seguir: 

Foi nesse contexto que em 2015 nasceu o Trust Project, uma iniciativa liderada pelos jornalistas americanos Sally Lehrman, que dirige o Trust, Richard Gingras, vice-presidente de notícias do Google, e Craig Newmark, criador dos classificados Craiglist.

O Trust Project tem duas missões articuladas: refletir sobre a fragmentação da notícia no meio digital e desenvolver ferramentas e técnicas junto com veículos jornalísticos e empresas de tecnologia para distinguir a informação jornalística qualificada do ruído – "notícias falsas" e a desinformação em geral que poluem as redes sociais.

 

Iniciado no Brasil em 2016, o Projeto Credibilidade é o capítulo brasileiro do Trust Project. O Credibilidade é uma parceria do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e a Unesp, a Universidade Estadual Paulista. Seus coordenadores são os jornalistas Francisco Rolfsen Belda (coordenador-acadêmico), professor de mídia e tecnologia da Unesp/Bauru, e Angela Pimenta (coordenadora-executiva), presidente do Projor. O projeto é patrocinado pelo Google Brasil.

Credibilidade é importante. Sem ela, tanto os veículos jornalísticos como o conhecimento coletivo perdem. Vivemos num mundo cada vez mais desafiador e complexo. Cobrar as responsabilidades do governo, empresas e instituições é cada vez mais vital. Para funcionar, a democracia depende de informações justas, precisas e completas que sejam amplamente distribuídas e consumidas e respeitadas por sua credibilidade. 

 

Sally Lehrman e Richard Gingras
(Extraído do manifesto Caos on-line exige ação radical para que o jornalismo tenha credibilidade)

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