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A desinformação na história

Radcliffe Institute for Advanced Study

O International Center for Journalists criou uma linha do tempo em A Short Guide to History of Fake News (Um Breve Guia da História das Fake News). E o historiador americano Robert Darnton também revelou as antigas raízes da mentira de caráter político no artigo The true story of fake news (A verdadeira estória das notícias falsas) publicado pela revista The New York Review of Books

 

Abaixo, um resumo da mentira através dos séculos:

Século 4 A.C. – Otávio (que viria a ser o imperador romano Augusto) promove uma campanha de difamação contra Marco Antônio, acusando o amante da rainha egípcia Cleópatra de ser um mulherengo bêbado em breves inscrições 

Carole Raddato/Creative Commons 2.0

Século VI – No império bizantino, o historiador Procópio produzia informações falsas para ferir a reputação do imperador Constantino. As crônicas de Procópio foram editadas num livro intitulado Anecdota, que só pôde ser divulgado após sua morte. 

Século XVI – Em plena renascença italiana, o poeta Pietro Aretino tentou manipular o conclave papal de 1522, escrevendo sonetos venenosos e com informações falsas — contra todos os candidatos ao cargo, à exceção de Giulio de Médici, o patrono de Aretino. A estratégia não deu certo, pois Adriano VI — e não Giulio de Médici — acabou sendo eleito.
 

Mas Aretino entrou pra história por exibir seus sonetos perto de uma estátua, o Pasquino, nas imediações da Praça Navona, em Roma. Vem daí o origem da palavra pasquim para caracterizar um veículo que produza informações falsas e sensacionalistas.

Século XVIII – Às vésperas da Revolução Francesa, a circulação de rumores maldosos, muitos deles na forma de canções e poemas não mais extensos do que os tuítes de hoje em dia, levou à queda do ministério do Conde de Maurepas, secretário de estado, do rei Luís XVI. A queda do ministério de Maurepas, em 1749, alterou significativamente o panorama político francês, sendo considerada uma das causas da Revolução Francesa de 1789.

Voltando aos canards, durante a Revolução Francesa, os ilustradores inseriam o rosto da impopular rainha Maria Antonieta nas publicações. Darnton diz que o Canard ganhou assim uma nova vida, como propaganda política intencionalmente falsa.  Embora seu impacto não possa ser medido, certamente contribuiu para o ódio patológico à rainha, o que levou à sua execução em 16 de outubro de 1793.
 
Na época, a Inglaterra também era um terreno fértil para a publicação deliberada de inverdades. Darnton observa que a produção de "fragmentos falsos, semi-falsos e verdadeiros, porém comprometedores, de notícias alcançou um pico na Londres do século XVIII, quanto os jornais começaram a circular entre um público amplo."

Mosaico do Imperador Justiniano e seu Séquito (Basilica de San Vitale Ravenna).

Obra sob Domínio Público

Estátua Il Pasquino, em Roma. Berço do termo pasquim, foi usada desde a renascença para exibir mensagens com ataques políticos 

Conhecidos como "homens parágrafo", os cronistas de então circulavam pelos cafés e escreviam as poucas frases que iriam aparecer nos periódicos. Alguns trabalhavam por dinheiro, outros se contentavam em manipular a opinião pública em relação a algum tema ou a atacar uma figura pública, uma peça de teatro ou livro.

Século XIX – O jornal The New York Sun publica seis artigos sobre a "descoberta" de vida na Lua, afirmando que a fonte da informação era o astrônomo John Herschel

 

Século XX – Com ascensão do nazismo, em 1933 Joseph Goebbels cria o ministério do Esclarecimento Público e da Propaganda para disseminar mensagens incitadoras de ódio contra judeus, usando vários meios, inclusive o teatro e a imprensa

O que mudou deste então?

Em seu já citado artigo Morte e Vida da Imprensa, Carlos Eduardo Lins da Silva responde à questão:

A velocidade, a simplicidade e o baixo custo para produzir e disseminar falsidades com capacidade de proliferação muito rápida e abrangência geográfica imensa. Mais importante: o não fato é agora divulgado sem nenhum tipo de constrangimento até por pessoas que ocupam altos postos na hierarquia de poder, a começar por chefes de governo e de Estado.

Não que líderes no passado não tivessem mentido. Ao contrário. Provavelmente todo líder político sempre mentiu, quase por definição. Faz parte da política mentir, ocultar fatos, exagerar. A política sempre foi assim e sempre será. É impossível fazer política sendo absolutamente fiel aos fatos. A diferença é que antes isso se fazia dissimuladamente e quem mentia negava mentir. Agora, é despudorado.

Um bom exemplo da falta de pudor dos produtores de falsidades para fins políticos é a entrevista que a assessora Kellyanne Conway concedeu ao repórter Chuck Todd, da rede NBC logo após a posse de Donald Trump. Quando confrontada com o fato de que Trump havia afirmado erroneamente que a plateia de sua posse era maior do que a da posse do primeiro mandato de Barack Obama, Conway disse que o então secretário de imprensa de Trump, Spicer, havia apresentado "fatos alternativos" em favor da versão de Trump num briefing para a imprensa. Imediatamente, Todd disse que fatos alternativos são o mesmo que falsidades.

Reprodução do site da NBC

No programa “Meet the Press”, da rede NBC, a assessora de Donald Trump Kellyanne Conway tentou defender “fatos alternativos”  a favor dele. O repórter Chuck Todd respondeu: “veja, fatos alternativos não são fato. Eles são falsidades”.

SUMÁRIO

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